domingo

Adeus,

Decidir ir embora, estou partindo.
Estou colocando tudo na mala. Meu dvd Los Hermanos, cd ok Computer e aquele MP3 coração que lari me deu. Dois blocos de anotação em branco, dois lápis preto bem apontado e nenhuma borracha. Nenhum medo, nenhuma nostalgia. Quero carregar comigo só tudo isso que podermos ser . Um. O outro. Dois apaixonados pela vida, pelo sentimento, simples pelos desencontros do acaso, dois poetas silenciosos que se perderam e se encontraram em uma troca de palavras numa sala deserta e cheia, num final de tarde com chuva fina. Tenho que partir porque minha alma tem dessa de seguir, tem dessa de ficar palpitando em chamas quando é alardeada pelos percalços da vida, do destino, das cobranças e do sufoco desnecessário que apetece o peito despreparado para o amor que é apenas pleno.
Tenho que ir pra ver nos entendemos em caminhos contrários, pra ver se consegue sentir minha saudade. Pra ver se sua mão também sente o mesmo vazio que as minhas.
Dou adeus pra ver se você aceita o afeto que sinto e transformo em palavras.
Esse afeto que vai, este querer bem que vem.
Não sei quando volto - e nem sei se deveria voltar - mas espero de você o sorriso, a compreensão, um beijo de despedida encostado na promessa que nos veremos de novo um dia, dirigindo para cima, escondendo para baixo, cortando a cidade, descobrindo caminhos.
Ver aquele nascer do sol que ainda não chegou a ser conhecido. Espero aquele cd feito com coração que foi prometido ser sentido em uma sexta. Aquele dvd do Arnaldo Antunes, que combinamos de assistir juntos.
Iria chorar e apertar tua mão quando escutasse " meu peito é uma porta que ninguém vai atender". Agora tenho que partir para não deixar de ser eu - para ver se nos entendemos na complexidade de você me aceitar como sou. Inconstante, emoção, coração, efêmera. E eu compreender que seu silêncio seja realmente você. E que finalmente encontrasse resposta pra minha única pergunta.
Sabe..
Eu me perguntava até que ponto você era aquilo que eu via em você ou apenas aquilo que eu queria ver em você, eu queria saber até que ponto você não era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, até quando eu conseguiria ver em você todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que gostar era só conseguir ver , e desgostar era não conseguir mais ver.
Tem sido realmente estranho. As buscas, as perguntas e as respostas. As cartas que andei assinando para ver se silencio um pouco da confusão da minha mente que tenta por si só criar perguntas e responde-las por ti e por mim... Mania louca essa de criar justificativas pra tudo e de querer ter essas respostas. De no fim, lá no fundo do abismo acreditar que tua maior qualidade seja mesmo tua sinceridade e escutar de ti a verdade não essa que fico imaginando com o silêncio, mas a que tá no coração, lá dentro. Não aquela verdade de obrigação, mas aquela que tu sente que é preciso. Como eu fiz ontem e como tô fazendo agora.
Não tenho coração pra isso, essas incertezas me faz perder noção de tempo e espaço e me faz falar de mim e me faz te convidar pra perto e me faz sentir raiva de mim por ter pedido de novo e de novo e de novo. Viver é realmente estranho, relação humana é realmente triste.
É que as pessoas e principalmente você não compreende que a liberdade é uma promessa que nos prende em uma busca injustificada. Não sou feliz sozinha. Mas também nunca encontrei a felicidade de um amor tranquilo. Porque gostar de alguém só foi bom, até agora, quando a tormenta dobrou meu barco. Quando não tive para onde ir. Quando o tempo tirou minha âncora, minhas certezas, meus planos e objetivos sinceros e calculados. Quando me senti uma marinheira, só. Perdida no vazio da noite, mas com a certeza quente e reconfortante de que alguém estava me esperando lá atrás no porto. Mas agora eu aprendi a partir - a despedir e a chegar. E não me sinto mais uma estranha, no meio de um mundo tão... tão estranho.
Conforme escutei uma vez, " quando as coisas viram estranhas, o estranho vira profissional".
Hoje, com toda modéstia, eu sou sim uma profissional nesta arte de estranhar o vento. Por mais que tenha me permitido voar, por mais que você tenha me dito que dessa vez não iria gostar sozinha. Por mais que tenha fechado os olhos pro medo e pro passado com filmes e histórias triste.
Talvez voltemos a sonhar um dia,
talvez..
talvez não me sinta mais usada...
Talvez o filme de ontem tenha razão, pessoas diferentes tem atitudes diferentes mesmo que essas atitudes seja nos entristecer com a verdade. Talvez Raquel tenha razão a diferença tá na minha cabeça.. pessoas são iguais.
Agora estou na estrada, e agora sei voar. Continuo viva, leve e solta. Escrevendo coordenadas e inventado direções. Amor e medo.
Se o tempo agora é estranho é bom que a gente saiba por onde caminhar e, agora eu sei exatamente pra onde devo ir.Vou caminhando, dessa vez escutando Arnaldo Antunes, " longe"
Não, não... minha dramacidade do dia pede Los Hermanos, " pois é".